Monday, March 10, 2014

A PRINCESA DAS ÁGUAS (LIVRO I)




Ilustração e capa por Murilo Araújo
Sinopse
Cã é um garoto órfão de 15 anos cuja vida vira de cabeça para baixo quando um espírito de chuva o conduz a um portal mágico pelo qual ele atravessa para um exótico mundo  chamado Zylgor.
Sua aventura em Zylgor começa quando ele se vê perdido em um bosque azul. Cã tem apenas duas opções: continuar perdido ou seguir três estranhas criaturinhas. Mas seja qual for a escolha, a sua frente se estenderão situações inusitadas e perigos letais, pois logo descobre que terá que participar de uma arriscada jornada se quiser retornar para seu próprio planeta.
Ambientada em um mundo muito diferente do nosso, a história aborda o mito do herói, apresentando Cã, o protagonista, como uma projeção da condição humana no que diz respeito a sua complexidade psicológica, social e ética. Ao mesmo tempo, esse personagem transcende a condição do homem comum, pois representa virtudes que todos nós desejamos alcançar.

A inspiração
A inspiração para escrever Zylgor surgiu quando assisti ao filme "A História Sem Fim", baseado no romance do autor Michael Ende. Os elementos sobrenaturais, o mundo paralelo e os seres mágicos me fascinaram. Imediatamente, comecei a redigir a história de um garoto que é retirado da sua vida comum para participar de uma fantástica jornada em um planeta distante.
Desisti e rasguei meu manuscrito por achar que a história era boba demais, e passei a me concentrar em escrever para teatro. No entanto, não muito depois, buscando na biblioteca algo para ler, me deparei com um título esquisito que me chamou atenção: "O Hobbit". Li na contra capa sobre o autor, um tal de J.R.R. Tolkien, escritor premiado, filósofo e professor universitário. Resolvi ler por pura curiosidade e tão logo dobrei a última página da obra, me dei conta da grande tolice que tinha feito ao destruir meu mundo secundário. Isso tudo aconteceu antes do "bum" dos filmes dirigidos por Peter Jackson.
Recomecei a escrever, dessa vez não apenas tendo como base a minha própria imaginação, mas também buscando conhecimento em mitos e lendas das diversas culturas ancestrais, bem como nas fábulas de La Fontaine, nos contos dos Irmãos Grimm, de Charles Perrault, entre outros.


Capítulo para degustação

Demônio das águas
Os gnomos tinham colocado uma segunda caminha no quarto onde Cã dormia. Juntando as duas ao comprido, ele agora podia esticar as pernas. Deitou-se e se espreguiçou; porém, apesar do cansaço mental, não conseguiu pregar os olhos. Talvez não estivesse habituado com o fuso horário daquele mundo, porque já tinha percebido que os dias e as noites eram mais longos se comparados aos da Terra.
Quis virar-se de um lado para o outro, mas a cama era estreita. Impaciente, ele decidiu ir para o chão. Ali forrou um cobertor, deitou e fechou os olhos. Dez minutos se passaram e nada de o sono chegar. Com mais quinze minutos, assobiava baixinho, os olhos muito abertos; e com outros trinta minutos, batucava os dedos sobre o tórax, os olhos fixos no teto. Foi quando se insinuou em seu quarto um aroma delicioso que ele tinha certeza ter entrado pela varanda. Em seguida, ouviu um canto suave e irresistível misturado ao zunzunar da brisa. Ergueu-se e foi até a varanda para averiguar.
As folhas da grande árvore eram mexidas de leve pelo vento cálido e a luz das duas luas se esgueirava por entre os galhos mais altos. A superfície da água cintilava como um céu estrelado e infinito.
O garoto notou uma movimentação diferente lá embaixo. Aguçou a vista e distinguiu Lílat deslizando pela água, rodeada de criaturinhas luminosas que tinham aparência feminina e delicada e cabeleiras fartas e cristalinas como fios de água. O lago parecia estar todo perfumado e o aroma adocicado subia como uma tênue bruma.
Um vago pensamento de recuar e voltar para seu quarto passou pela cabeça do rapazinho, mas a vontade era fraca e o corpo não se moveu um centímetro sequer. Na verdade, existia dentro dele, naquele momento, um embate entre a razão e a embriaguez dos sentidos.
Lá embaixo, as pequenas ninfas levitavam sobre as águas e cantavam com vozinhas melodiosas.

Elemento precioso da vida
Transborda sentimentos da alma
Pleno de criação fecunda
Purifica e acalma
Purifica e acalma

Emoção, graça, simetria
Virtudes elementais
Intuição nobre e correta
Presentes espirituais
Presentes espirituais

Depois, a própria Lílat começou a entoar uma canção. A menina cantava e deslizava com suavidade e seus cabelos desaguavam no lago como uma cachoeira refletindo o brilho das estrelas. Cantava com voz profunda e cristalina. Embora a canção tivesse um final meio triste, ficava muito bonita na voz da princesa.
Meio que hipnotizado, Cã, devagar, se debruçou sobre o murinho do terraço para observar melhor.

Doce é o canto à luz do luar
Doce é voz das ninfas do lar
Suave é o lago e o seu encanto
Logo será apenas um sonho
Logo será apenas um sonho

Quando Lílat acabou de cantar, uma das pequenas ninfas disse:
— Logo a nossa princesa estará se separando de nós. Queremos que leve uma lembrança — e pedindo que Lílat erguesse o pezinho para fora da água, as ninfas começaram a imprimir na sua pele uma tatuagem mágica. Quando terminaram o lindo desenho no pé da menina, ela ergueu a vista para agradecer. Seus olhos aveludados adquiram uma expressão dura.
Cã achou ter sido visto. Aquilo o despertou do estado meio letárgico, e a razão tornou a comandar seu corpo e sua mente. Assustado com a possibilidade de ela se sentir ofendida, ele deu um passo atrás, ocultando-se nas sombras, e já tinha decidido voltar para o quarto quando ouviu a princesa entoar uma nova canção em um ritmo mais rápido e com um tom enérgico. Ele permaneceu ali mesmo e apurou os ouvidos. O que escutou foi o seguinte:

Frágil vontade da raça mundana
Não deve, não pode ser soberana
Frágil vontade, débil reinado
O que esperar de um macaco?
O que esperar de um macaco?

E todas riram com gosto. Cã não estava tão animado quanto elas. Muito pelo contrário, não tinha apreciado em nada aquela canção, em especial a última parte que falava sobre macaco e ficou vermelho da cabeça aos pés.
— Música engraçada, Alteza! — uma das ninfas comentou.
— Digamos que acabo de ter uma visão inspiradora — a princesa respondeu, fazendo questão de elevar a voz.
Cã sentiu-se ofendido e decidiu acabar com a brincadeira. Voltou à amurada e disse em voz alta:
— Parece que não sou o único com insônia. Vou dar um mergulho também.
As pequeninas emitiram gritinhos de susto e sumiram para baixo do espelho de água quando Cã pulou da varanda e mergulhou no lago. A água estava morna e acolhedora. Ele veio à tona sorrindo desafiadoramente, mas não demoraria muito para descobrir que Lílat não era alguém que aceitava desafios.
Por um momento fugaz pareceu florescer um sorriso nos lábios da princesa. Ela aproximou-se do rapazinho devagar e aquilo o deixou nervoso, com os sentidos meio entorpecidos. Ainda mais confuso ficou quando ela, com um olhar misterioso, mergulhou.
— Que é agora? Quer brincar de esconder?
De súbito, as pernas do garoto foram agarradas. Ele foi puxado para baixo por um segundo e voltou à tona tossindo e olhando para os lados, tentando encontrar Lílat. Havia algo no lago e ele estava temeroso se aquilo que o tinha atacado talvez tivesse levado a menina. Naquele instante, sentiu algo enroscar em seu pé e mais uma vez foi tragado.
Tentáculos ondulavam por todos os lados. Não... Não eram tentáculos e sim as mechas violeta dos cabelos de Lílat que pareciam ter vida própria, puxando o garoto para as profundezas. De início ele não entendeu, mas quando começou a sentir a água penetrando em seus pulmões, percebeu que Lílat o estava afogando. Por mais que ele tentasse se soltar, seus esforços de nada adiantavam. Seus pulmões ardiam e seu corpo foi amolecendo. Por fim, conseguiu discernir apenas um punhado de ninfas tremeluzindo a sua volta.
Cã estava na faixa de terra ao pé da árvore. Cuspiu muita água, tossiu sem parar e ficou de joelhos, ainda sem forças para se aprumar. Percebeu que os gnomos estavam ao seu lado. Aturdido, distinguiu a voz de Mu ralhando com ele.
— Que ousadia! Ficar bisbilhotando a princesa tomar banho e interromper seu encontro com as ninfas do lago!
O menino levantou-se com dificuldade, a expressão enraivecida e indignada.
— Eu não estava bisbilhotando. Fui atraído pelo canto dela. Ora, pensando bem, acho que fez de propósito para me atrair. Depois tentou me humilhar e, como se não bastasse, ainda quis me matar.
— Chega de tolices por essa noite! Vamos para dentro! — Vu resmungou entre bocejos de enfado. Prestando atenção naquilo, Cã achou que ele estava mesmo era querendo disfarçar uma gargalhada e confirmou sua impressão ao lançar a vista nos outros dois gnomos. Zu abafava o riso, escondendo a boca com as mãozinhas peludas, e Mu controlava-se para não fazer como o irmão mais novo, embora balançasse a cabeça ainda com um gesto de reprovação pelo comportamento de Cã que entrou cabisbaixo e com os ombros arriados, resmungando:
— Demônio das águas. Isso é o que ela é.
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Ilustração por Murilo Araújo




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